domingo, janeiro 09, 2011

Metamorfose 2

Estou a tornar-me num homem só. Todos os que conheço estão a ficar pelo caminho. Florescem apenas em lembrança. São apenas memórias, momentos, passado.

E quanto à "alma gémea"? Talvez já tenha morrido, noutra era qualquer. Aqui, estou só à sua procura, talvez da memória de ela ter existido. Sim, porque seria algo que me marcaria para sempre, de um modo distinto e profundo. O que, de verdade, ainda não aconteceu.

E se não a encontrar, mais vale ficar só. Dar o meu coração a muitos desconhecidos, fazer soltar um pouco a sua felicidade, do que entregar de bandeja a alguém que é meia-alma gémea. Que não sabe apreciar o meu potencial.

Mais vale repartir a quem não tem e precisa, do que a quem tem e despreza.

Quem me dera não ter amigos. Conseguir ser só eu, a ajudar em anonimato. Porque os amigos, verdadeiros ou falsos, acabam sempre por exigir, por magoar. Seja por boas ou más intenções. E neste momento, da forma como crescemos, a aprender o material da realidade, não sabemos recuperar quando nos ferem. Porque sofremos em silêncio, porque ninguém confia em ninguém, porque todos acabamos por assassinar a nossa criança. Porque isso é hoje necessário para sobreviver.

Mata a criança em ti e sobrevive. É triste?

Sim, mas aceitando isso, tudo se revela noutra perspectiva. Vê-se um mundo de gente crescida, sozinhas nelas próprias, arrastando atrás de si o cadáver da criança que um dia foram. E acima disso, a todo o custo, tentam-se enganar a si mesmas, mentem-se para outra realidade.

Porque somos uma espécie ainda rudimentar, acerditamos que "têm-se" felicidade, quando na verdade, nós não "temos" coisa alguma para além de um corpo. Temos por hábito "possuir" o que é alheio a nós próprios. Tenho amigos, tenho inimigos, tenho uma casa, tenho um Pc... quando na verdade eles é que nos têm a nós. É simples: o que é mais grave, perder 12 cabelos ou perder o telemóvel?

Telemóveis e isto, escrever aqui. A necessidade de manter a proximidade pela distância da comunicação. Quero comunicar contigo, mas longe. Quero estar no meu mundo, seguro, sem confronto, mas comunicar à mesma. Para me iludir que não estou só.

Mas estou. E tu também.

Isto sempre foi assim?

Não.

Benvindo os tempos em que o materialismo e o consumismo eram ainda embriões. Mas essas épocas foram assassinadas quando nos cegámos perante um modelo capitalista da sociedade. Porque a sociedade é neste momento um monstro, que nos transforma e molda em seres não-humanos. E quem vais contra tudo isso, é louco e morre ali no instante. Quem falha, morre. Quem tem nota, sobrevive.

Porque no fim, são loucos governados por loucos, que julgam poder-se alimentar com os números e com as notas e moedas que julgam que possuem. É meu. Meu, meu meu meu...

E assim é o fim do mundo. Ou da humanidade. Porque o "mundo" vai continuar por cá, indiferente à pequenez e arrogância, por mais catástrofes que aconteçam.

Sou feliz?

Começo agora então a construir isso. De dentro. Para fora.

Hoje sou um objectivo. Luto todos os dias contra mim para alcançar o objectivo. Porque facilmente me distraio e me indisciplino. Porque à custa deste meu objectivo, deixo de ter contacto social, ou torna-se mínimo. Porque assim, fico mais centrado na minha realidade, é com mais clareza que me observo. E assim é mais fácil disciplinar, (re)ensinar, e claro, melhor aprecio os escassos momentos em que estou na literal presença de alguém.

Porque todos nós temos a predisposição para nos moldar-mos, como se faz ao barro, por mais teimosos que sejamos. Porque eu sou dono da minha vontade e do meu corpo. São o meu eu e o meu templo. E só com estes dois saudáveis e íntegros, consigo eu ajudar, clarificar e amar o próximo.

Bem, vou então voltar a agarrar nas letras e números.

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