sábado, abril 16, 2011

Azul

Vivo hoje a minha tristeza. Entrego-me completamente, desdobra-se a dor do meu coração. Sou dor. Ainda não comi nada de jeito, o meu estômago hoje não que nada. Estou fraco, hoje sou fraco. Pesam-me as pálpebras. Hoje vou morrer outravez. A lua, cheia, acolhe-me, lava-me a alma. O corpo chora. Porque sofri tanto? Já não interessa. Se ainda estou vivo, é porque sou duro, sou o cepo que teima em não deixar rolar a hélice.

A essência do coração não se apaga. Pulsa. Quero ser água, fluir, no tempo, no espaço. Vejo infinitos lugares que poderiam ter sido, ontem, hoje, amanhã. A imaginação suga-me, parasita-me, corrói-me. E de novo reapareço. Eu íntegro.

Quão limitado me distraio por vezes de que o que é realmente meu, é o meu corpo nu, e tudo em que me ramifico? Aquele desenho? Aqueles acordes? Estas palavras? Eu não existo. Nada mais do que matéria organizada desta forma... no fundo, o meu corpo já não é o que foi há dez anos atrás... todas as células do meu corpo já foram regeneradas. Excepto as que "contém" a minha consciência. Eu que aqui me expando sobre tu que lês.

Só na solidão vem a perspectiva clara. Deixa de haver distração. Começas a ver-te. Vês? Pois, por isso é que não tens a certeza. Não estás em paz de ti próprio. Foges na surrealidade do dia a dia, evitas-te confrontar.

Cru. Estou mais cru que sushi. Assim admiro, contemplo e tenho compaixão da futilidade dos outros, das pequenas mentiras, das meias verdades. Vejo pessoas que sofrem, até mais do que eu. As cicatrizes que deixam na cara momentos de dor.

Melodrama. Porque no fundo, não existimos. Queremos afirmar a nossa existência. Quermos comer tudo e todos. Devorar, controlar, ter...

Tu não tens nada seu/sua pequenote(a). Tens o teu corpo e a memória de ti, nas outras pessoas. O resto? És tu a iludir-te.

Mas lá está. Mens agitat molem. A mente agita a matéria. A consciência controla a matéria. No fundo, o corpo tem duas funções, no caso do Hommo sapiens sapiens, manter a mente consciente aqui, agora, e reproduzir a próxima geração. Tudo o que está no meio das duas uma, ou causa alegria e prazer, ou provoca dor. Tão simples quanto isto.

A vida é clara e simples.

E hoje, morro outra vez. Renasço quando a Lua me beijar na alma. Há um zumbido na minha cabeça, estou extremamente hipoglicémico. Tenho dor de cabeça e mialgias. Estou a morrer.

Vou fazer um chá com mel. Cuspo de abelha. Quem diria que me ia ajudar hoje?

Não estou apaixonado por ninguém. Apenas olho para o meu objectivo. Apetece-me arrancar as costelas uma a uma para chegar ao coração e bombeá-lo com mais força. Eu vou chegar ali. Sim, vou.

Frio. Sou a tristeza, sou o frio.

Porque a parte feia da vida também é real. Existe. É.

Onde estás tu?

Matilde, toca-me isto.

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